A história nas mídias sociais: da citação acadêmica ao diálogo com o público

Julho/2019

Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos

Bruno Leal, Marina Lemle, Roberta Cardoso Cerqueira, Ronaldo Araújo e Germana Barata. Foto: Vivian Mannheimer

Como historiadores podem continuar dialogando com as pessoas depois que elas deixam a escola? Como contribuir para a continuidade da formação histórica do grande público? Responder a estas perguntas na prática tem sido o desafio diário do jornalista e historiador Bruno Leal Pastor de Carvalho há mais de uma década. Fundador e editor-chefe do portal Café História, é justo afirmar que tem sido bem-sucedido. Criado em janeiro de 2008, o portal tornou-se um case de divulgação científica no Brasil e uma referência na área de história digital. Hoje, o Café História tem de 3 a 5 mil acessos diários e picos de até 10 mil, dependendo da pauta. O portal concentra todo o conteúdo multimídia divulgado no Facebook, Twitter, Youtube, Instagram, Google Plus, Telegram, LinkedIn e Pinterest, alcançando mais de 500 mil pessoas mundo afora.

Não à toa, Leal costuma participar de eventos nos quais compartilha com pares a sua experiência editorial, como a mesa “Mídias sociais, história pública e critérios de avaliação”, realizada em 28 de junho, no workshop “Presente e futuro das publicações de história: debates por 25 anos de História, Ciências, Saúde – Manguinhos”, na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, no Rio de Janeiro. À plateia formada principalmente por editores de periódicos científicos das áreas de história e humanidades, Leal contou que, este ano, o Café História conquistou um avanço importante para o seu status acadêmico: obteve um número de ISSN (International Standard Serial Number, ou Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas) junto ao Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), o que dá credibilidade ao portal e confere segurança aos autores que publicam nele.

O portal recebe colaborações de professores e pesquisadores de história. Leal contou que, com frequência, chegavam textos em formato de artigo científico, com características inadequadas à divulgação científica. Com o tempo de experiência, ele e a subeditora Ana Paula Tavares foram construindo um modelo – nunca totalmente pronto – de textos de divulgação científica em história. Segundo a fórmula atual recomendada no “guia do colaborador”, inspirado em manuais de redação de grandes jornais, os textos devem ter de duas a cinco páginas, título e subtítulo com função explicativa, intertítulos, parágrafos não muito longos, hiperlinks e palavras-chave repetidas para melhor indexação por mecanismos de busca, já que dois terços dos acessos vêm do Google. Bibliografia e notas de rodapé são admitidas. Imagens, vídeos, infográficos e documentos para linkar são bem-vindos, para “dar vida e organicidade ao texto”.

Segundo Leal, antes da publicação todos os textos passam por revisão dos editores e revalidação pelo próprio autor, o que às vezes resulta em diversas idas e vindas. Após a publicação, o impacto acadêmico é mapeado pelo sistema Altmetric.com. Leal contou que em um ano 20 textos publicados no Café História foram citados em artigos acadêmicos, inclusive do exterior, e com grande rapidez.

Dos compartilhamentos às citações

Editora-executiva de HCS-Manguinhos, um dos periódicos pioneiros no uso de redes sociais no Brasil, Roberta Cardoso Cerqueira explicou que a divulgação nas redes amplia a possibilidade de se atingir públicos mais diversos. “Divulgar a pesquisa científica pode ser o caminho para um maior apoio da sociedade aos investimentos em ciência”, disse.

Os blogs de HCS-Manguinhos em português e internacional (inglês e espanhol) publicam resumos de artigos publicados na revista, entrevistas com pesquisadores, matérias sobre temas abordados na revista e sobre eventos, lançamentos e efemérides. A editora contou que é feita uma seleção criteriosa de imagens e que há um cuidado com as fontes usadas como referência nas postagens. É solicitado aos autores que enviem press-releases para auxiliar na divulgação de seus artigos.

Roberta deu exemplos de como a divulgação nas redes sociais e em blogs impacta os acessos aos artigos na revista, medidos pela ferramenta Altmetric. Ela destacou a importância de se estimular o autor a divulgar seus artigos em suas próprias redes. “A divulgação pelo pesquisador gera credibilidade e aumenta a possibilidade de atingirmos o público interessado no objeto da pesquisa”, afirmou. Outro recurso que favorece o alcance e a circulação das publicações é a marcação de ‘influenciadores’ nas redes – pessoas ou páginas que sejam referência ou tenham interesse na área temática do artigo. Segundo Roberta, o número de compartilhamentos pode indicar o potencial de citação de um artigo.

Marketing científico digital

Na apresentação “Marketing científico digital e métricas de mídias sociais indicadores de ‘avaliação'”, Ronaldo Araújo, editor do periódico Ciência da Informação em Revista, abordou o poder de hashtags como #twitterhistorians para se mapear o que os historiadores estão falando nas redes. “A hashtag fornece uma boa visão de como a história pública e os historiadores podem se beneficiar das mídias sociais”, disse.

Segundo Araújo, o sucesso das tecnologias da web social (wikis, blogs, microblogs e outras mídias sociais) tem aberto novas oportunidades de colaboração e compartilhamento de informação entre cientistas e pesquisadores, além de novas perspectivas de relação entre a comunidade acadêmica e o público em geral. O pesquisador, que é professor do Curso de Biblioteconomia do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes da Universidade Federal de Alagoas, também abordou o surgimento de novos indicadores e métricas capazes de medir o interesse público pela história e destacou o avanço da altmetria – estudo dos indicadores da comunicação científica baseados na web social. Ele explicou que a altmetria não é uma medida única, mas um conjunto de métricas diversas – por exemplo, quantas vezes um artigo foi compartilhado numa rede social como o Twitter ou salvo em um gerenciador de referências acadêmicas como o Mendeley.

Araújo lembrou que portais como SciELO e Redalyc têm exigido cada vez mais a presença e o impacto das revistas na web, e afirmou que o marketing científico digital tem sido considerado uma boa estratégia de planejamento, assim como as métricas alternativas uma promissora forma de sua avaliação. “É preciso aliar estratégias de marketing ao fazer científico, pensar o conhecimento científico como um produto a ser promovido. Às vezes, fazer boa ciência não é suficiente”, disse. No artigo “Marketing científico digital e métricas de mídias sociais: indicadores chave de desempenho de periódicos no Facebook“, publicado na revista Informação & Sociedade: Estudos (v. 28, 2018), o pesquisador analisa a presença e a performance de 67 periódicos brasileiros no Facebook. 

Divulgação para além dos pares

A importância de as revistas científicas online serem responsivas para celular, já que 97% dos usuários de internet no Brasil a acessam pelo aparelho, foi destacada pela professora Germana Barata, professora do curso de Mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Labjor, da Unicamp. “Ainda somos revistas impressas na tela”, disse Germana, que foi editora das revistas Ciência & Cultura e ComCiência, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ela observou que a maior parte dos acessos ao SciELO são feitos por não acadêmicos. Entre estes “práticos”, estariam pessoas que querem se atualizar em suas áreas de atuação, ONGs e políticos. Segundo a pesquisadora, o fato de as revistas terem acesso aberto não garante o acesso do público à informação científica, e a divulgação nas redes pode ser uma solução.

Para Germana, é preciso pensar a divulgação científica não só para justificar os investimentos do dinheiro público em ciência, mas por muitas outras razões, tais como o potencial de aumentar acessos a artigos e citações a ele, estimular submissões e favorecer a internacionalização, que tem sido, segundo ela, o maior motivador para a divulgação científica em redes sociais. Para isso, são fundamentais o apoio institucional e a estabilidade de financiamento. “A crise de ciência e tecnologia no Brasil não incentiva esforços extra de comunicação nas revistas no momento que mais precisamos”, lamenta.

Sobre a ferramenta Altmetric, ela sugere que se use, mas com moderação, já que o sistema teria inúmeros gaps, sobretudo para latino-americanos, pois foi construído com indicadores adequados a países desenvolvidos e ciências de outras áreas, como as biomédicas. Segundo ela, estes indicadores não mostram a ciência latino-americana chegando nos blogs, nos jornais, na wikipedia etc. “As altmetrias devem trazer indicadores que sejam relevantes para cada país”, defendeu.

Germana, que é bióloga e doutora em história, também alertou para o risco de as revistas falarem apenas para pares nas redes sociais. Ela deu exemplos de iniciativas de divulgação científica que travestem a ciência de “curiosidades”, como vídeos de divulgação científica que fazem sucesso no YouTube. “É preciso fazer esforços para conversar com a comunidade. A gente precisa olhar para fora da nossa bolha, que é muito confortável e minúscula. Não que a revista científica deva virar isso, mas pode olhar para isso e buscar colaboração, marcando influenciadores, por exemplo”, sugeriu.

A mesa foi mediada pela jornalista Marina Lemle, do Blog de HCS-Manguinhos.

Como citar este post:

A história nas mídias sociais: das citações acadêmicas ao diálogo com o público. Blog de HCS-Manguinhos. Publicada em 02 de agosto de 2019. Disponível em http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/a-historia-nas-midias-sociais-da-citacao-academica-ao-dialogo-com-o-publico

Leia mais sobre o workshop no Blog de HCS-Manguinhos:

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E no Blog de HCS-Manguinhos internacional…

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Leia em HCS-Manguinhos: 

Divulgação científica, redes sociais e historiadores engendrando novas histórias: entrevista com Bruno Leal, entrevista concedida a Jaime L. Benchimol, Roberta Cardoso Cerqueira, Camilo Papi e Marina Lemle (vol.22, no.3, jul./set. 2015)


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