A ciência pode ser divertida!

Outubro/2013

Haendel Gomes | Agência Fiocruz de Noticias

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Projeto atingiu a marca de 100 viagens em sete anos. (Foto: Vinicius Pequeno)

A frase do título é de Marcus Soares, coordenador do projeto “Ciência Móvel – Vida e Saúde para todos”, um museu itinerante composto por diversos módulos levados no baú de uma carreta a cidades da região Sudeste do País carentes de museus de ciência. Nesta entrevista, o biólogo dedicado à educação e à divulgação da ciência fala sobre os sete anos do projeto, as experiências vividas nos mais de 100 municípios visitados e da satisfação da equipe com a marca de mais de meio milhão de pessoas atendidas com o projeto. O público se diverte e também aprende com as atividades interativas, palestras, oficinas e vídeos oferecidos nas viagens do caminhão de 13,5 metros de comprimento, mantido pelo Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz) em parceria com o governo do Estado (Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro Cecierj), uma empresa privada (Sanofi) e Bio-Manguinhos/Fiocruz.

Marcus Soares conta como foram as experiências da equipe nas cidades visitadas. No Espírito Santo, por exemplo, ele conheceu o município de Santa Maria de Jetibá, onde a população orgulha-se da origem pomerana (antiga região localizada entre a Alemanha e a Polônia, com idioma próprio). Segundo ele, os habitantes se consideram os mais pomeranos do País. Aprendem o idioma antes do português. Há também, segundo eles, o único dicionário Português – Pomerano/Pomerano – Português, conta Marcus, ao lembrar do município. Em outra ocasião, em Cubatão (SP), houve uma grande procura de visitantes (em torno de 500 pessoas a cada hora de visitação). Foi “uma loucura!”, destaca. Mas, a equipe conseguiu atender a todos, ressalta.

O coordenador do projeto lembra que a atual temporada ganhou um componente novo: a arte. De acordo com Marcus Soares, até 2015 será feito um trabalho intenso de forma a aliar mais arte e ciência – atividade já desenvolvida pelo Museu da Vida com o espaço Ciência em Cena na sede da Fiocruz em Manguinhos (RJ) –, por meio do projeto “Ciência Móvel: Arte e Ciência sobre Rodas”. A ideia é incorporar aos módulos do caminhão atividades circenses e teatrais. Ele revela ainda uma nova parceria com o Projeto Portinari, que vai participar com parte de sua exposição “Portinari – Arte e Ciência”.

“A gente provoca uma discussão entre o trabalho de Portinari e a ciência a partir da imagem que ele fez”, diz. A seguir, a entrevista com o coordenador do projeto itinerante do Museu da Vida.

Em sete anos, o projeto “Ciência Móvel – Vida e saúde para todos”, coordenado pelo Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz) chegou a meio milhão de pessoas atendidas em suas viagens. Como se sente chegando a esta marca?
Marcus Soares: Primeiro é uma satisfação muito grande, porque durante esses sete anos de existência, passamos por muitas dificuldades institucionais, principalmente de recursos financeiros para que pudéssemos fazer nossas viagens. Então atingir essa meta de meio milhão de pessoas é uma alegria muito grande. É sinal de que a Fiocruz, como instituição, apostou, acreditou no projeto, que hoje está caminhando bem. Está atingindo seu objetivo, ou seja, chegar a um público diferenciado, que não tem acesso aos bens culturais que oferecemos. A grande maioria das viagens foram para o interior dos estados, em municípios afastados dos grandes centros. Em torno de 66 municípios diferentes foram visitados. Essa é a maior satisfação.

Como tem sido a acolhida ao projeto?
Marcus Soares: Existe um acolhimento muito grande, bastante intenso, pela população. É uma relação que a gente estabelece com nossos interlocutores nas cidades, inclusive com os jovens. A gente estabelece um canal de comunicação com eles bastante interessante, frutífero, principalmente porque esses jovens acabam tendo contato com nossos mediadores, que têm uma experiência cultural, educativa também diferente. Então o acolhimento é muito bacana. A cidade fica muito satisfeita com a nossa presença.

Pode nos contar algumas experiências marcantes nessas viagens?
Marcus Soares: Sem dúvida, posso dizer que foram várias. Uma delas foi numa cidade do Espírito Santo: Santa Maria de Jetibá. Eles a consideram a cidade mais pomerana do Brasil. Eles são descendentes da Pomerânia, que ficava entre a Alemanha e a Polônia e tinha uma língua própria. É uma cidade onde as pessoas falam pomerano, a primeira língua que aprendem. Depois vão aprender o português. Acho que é a única cidade que tem um dicionário Português-Pomerano/Pomerano-Português. Essa foi realmente uma experiência única. Tivemos tantas outras experiências. Cidades muito pequenas, simples, mas com grande calor humano. Outra experiência interessante foi em Cubatão (SP), onde inicialmente o público era muito pequeno. No segundo dia, o prefeito foi visitar o projeto e falei que tínhamos um gasto grande para levar o projeto lá. Ele também tinha um gasto muito grande. No dia seguinte, ele parece que mandou todas as escolas da cidade. Foi uma loucura! Durante o dia inteiro pessoas querendo entrar e a gente tinha que dar um jeitinho para ter condições de receber aquela quantidade toda de pessoas ao mesmo tempo. Mas, no fim, acabou dando tudo certo. Foram algumas experiências bastante interessantes.

Mais de cem viagens realizadas. É como se o projeto tivesse nesses sete anos de existência visitado mais do que todos os municípios fluminenses (91 no total). Está satisfeito?
Marcus Soares: Eu fico feliz! Mas ainda é muito pouco diante do que o Ciência Móvel pode fazer. Acho que a gente pode fazer muito mais. Só na região Sudeste, que é nossa área de atuação, são mais de mil municípios. Então, a gente atingiu 10%. Pode fazer muito mais! Mas, olho isso com muita alegria. Se a gente pudesse, viajava toda semana, se tivesse pessoal, recursos… Uma média de 11 viagens por ano é um bom número, mas a gente pode fazer mais. 

Por que o Brasil não tem mais museus de ciência e há essa necessidade de termos um museu itinerante? Por que não há mais incentivo a esse tipo de atividade?
Marcus Soares: Não é uma pergunta muito fácil de responder. Mas vou tentar a partir da minha experiência, de minha percepção e de algumas reflexões. Existe uma conjuntura política, cultural… não vou dizer que não favorece, porque a gente tem um número razoável de museus no País; não de museus de ciência. A gente tem um guia que demonstra um número razoável ou significativo de museus e centros de ciências no país. Mas acho há essa necessidade de projetos como o Ciência Móvel existirem porque [os museus existentes] não dão conta [de atender todo o público. O Brasil] é um país muito grande, a dimensão territorial é muito grande. E ainda existem muitos municípios que são distantes dos grandes centros e até mesmo entre eles. E não faz muito sentido, na minha opinião, ter um museu de ciências em cada cidade. Poderiam existir polos em que se poderia fomentar a visitação com uma troca entre as cidades. Mas existem muitas ações positivas, principalmente do MCT [Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI], que estão tentando dar conta dessa carência. 

Fale um pouco sobre o conceito do projeto Ciência Móvel.
Marcus Soares: O projeto é uma unidade móvel do Museu da Vida, da Fiocruz. O trabalho que efetuamos é pegar os módulos expositivos que temos e outros que não são necessariamente do Museu da Vida e levá-los para outra cidade. O conceito é levar a experiência de um museu de ciência, a experiência que temos aqui, adquirida em mais de 14 anos de atividade no Museu da Vida, para fora dos muros da Fiocruz. Existem várias escolas de cidades de fora do Rio de Janeiro que vêm para cá, mas existem muitas escolas ou cidades que não conseguem visitar o Museu da Vida. 

Pode falar sobre a união da arte à ciência para a divulgação científica?
Marcus Soares: O Museu da Vida já atua em uma linha de trabalho nessa perspectiva de aliar ciência à arte. Atividade de teatro, produção de vídeo, entre outras que fazem o trabalho de mostrar essa forte relação entre ciência e arte. Para 2013, 2014 e 2015, temos um projeto que também visa fazer esse trabalho de uma forma mais intensa, mais marcante, de aliar arte e ciência ou ciência e arte. Estamos chamando a nova temporada do Ciência Móvel de “Ciência Móvel: Arte e Ciência sobre Rodas”. Temos algumas atividades que buscam aliar a relação entre arte e ciência por meio de atividades circenses. Temos também algumas esquetes teatrais que estão sendo produzidas. Em breve estarão sendo apresentadas nas cidades aonde vamos. E temos também para 2014 um trabalho que será feito com o novo parceiro – o Projeto Portinari –, para trazer ao Ciência Móvel parte da exposição “Portinari – Arte e Ciência”. Esse trabalho é feito a partir das obras de arte, das telas de Cândido Portinari. A gente provoca uma discussão entre a tela de Portinari e a ciência a partir da imagem que ele fez. 

De que maneira o Ciência Móvel pode aumentar seu público?
Marcus Soares: Para isso, a gente precisa de uma conjunção de fatores. Esses fatores têm que estar muito bem amarrados. Primeiro é conseguir trazer para o Ciência Móvel uma quantidade maior de atividades, ou seja, incorporar novos módulos expositivos. A gente espera conseguir esse aumento com a exposição Portinari, com as esquetes teatrais. E obviamente com a aquisição de novos equipamentos. Acho que isso automaticamente aumenta a quantidade, a capacidade de o projeto receber mais pessoas. Segundo, nós fazemos um trabalho junto às prefeituras de assumir as contrapartidas (aumentar a capacidade administrativa) que estejam relacionadas a pessoal, hospedagem de nossa equipe, e o município conseguir um espaço físico também para que possamos colocar os nossos equipamentos. Se a gente conseguir conciliar esses fatores, seria um sonho para mim, porque aumentaria esse atendimento e manteria a qualidade também.

Por que é importante fazer divulgação científica? 
Marcus Soares: Para muita gente, a ciência é algo muito obscuro ou distante. Para alguns, é algo impossível; somente mentes brilhantes podem fazer a ciência. Muitas pessoas não entendem que a ciência está no dia a dia, está muito próxima delas. Desde o uso do telefone celular a uma antena parabólica, ao uso de micro-ondas. E questões relacionadas à saúde e ao meio ambiente também fazem parte de todas essas ações existentes entre ciência, tecnologia, saúde e meio ambiente. Quando se fala em uma hidrelétrica, você está mostrando uma relação muito forte com a questão do meio ambiente, porque tem que alagar grandes áreas e, de uma certa maneira, está influenciando questões relacionadas à saúde daquela população. Está falando do consumo excessivo de energia. Por que precisamos tanto, cada vez mais, de hidrelétricas? Existe um consumo e um desperdício de energia muito grande. Então, a divulgação da ciência, de certa maneira, mostra aspectos que contribuem para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, além de permitir um processo de reflexão e de mudanças de hábitos e atitudes por parte da população.

Recentemente, uma pesquisa do MCT [Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação] feita em parceria com o Museu da Vida identificou que a população, ao ser perguntada sobre quem são as pessoas mais confiáveis para falar de ciência, apontou os médicos. E mostra que só depois, em terceiro ou quarto lugar, aparecem os cientistas. Isso é uma coisa interessante. O que está fazendo a ciência e quem está fazendo ciência no País? Se você divulga ciência, se discute como essa ciência é produzida, onde ela é produzida, isso também é importante para divulgação da ciência. É importante deixar claro para a população que ciência é feita de diversas maneiras, em diferentes lugares, possui diferentes discursos, está muito próxima das pessoas e elas não percebem isso. Além disso, há uma característica da ciência: ela pode se mostrar como algo muito divertido. Vários canais de televisão estão apostando nesse nicho da ciência, da divulgação da ciência, e apostam muito nesse lado da diversão, de mostrar que é divertido. Isso é uma forma de divulgar ciência, mostrar à população que a ciência não é tão complicada. Obviamente ela tem seu componente que não é tão simples de ser entendido e nem sempre ela é divertida, mas a divulgação da ciência permite que aquilo que parece ser tão difícil pode ser mais fácil de ser compreendido.

Fonte: Agência Fiocruz de Noticias

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